A diferença começa na escola.
Com 120 bilhões de reais a mais e 5 milhões de estudantes a menos, o
Brasil terá, nos próximos dez anos, uma oportunidade histórica para
tirar o atraso na educação básica — e garantir que nossa economia de
fato decole
As meninas da foto ao lado moram e estudam no distrito de Aracatiaçu,
em Sobral, no Ceará. Aracatiaçu fica a 60 quilômetros do centro de
Sobral, que por sua vez está a 250 quilômetros de Fortaleza. É a zona
rural de uma das cidades mais quentes do país. Pior: o sertão nordestino
sofre com a maior seca dos últimos 50 anos. Na escola delas, o
ventilador só espalha o calor. Quando a reportagem de EXAME visitou o
local, fazia 40 graus. Mas essas crianças têm sorte de viver ali. Nos
últimos 13 anos, Sobral vem se consolidando como um exemplo bem-sucedido
de reforma educacional. O índice de Desenvolvimento da Educação Básica
(Ideb), indicador do Ministério da Educação, é maior em Sobral do que em
qualquer capital do Brasil nos anos iniciais do ensino fundamental. O
mais surpreendente é que os efeitos dessa política educacional já são
sentidos até no setor privado. A fabricante de calçados gaúcha Grendene
chegou a Sobral em 1992, quando a atividade econômica local era quase
toda agrícola. Na época, o único requisito para trabalhar na fábrica era
não ser completamente analfabeto — e mesmo assim era difícil conseguir
gente.
Os programas de treinamento se dedicavam a ensinar os empregados a
compreender textos e a fazer contas básicas. Nos últimos três anos, a
Grendene tem intensificado a troca daquela mão de obra mais rudimentar
por jovens — de Sobral mesmo. A empresa sente o efeito na forma de
melhoria da produtividade. Em Sobral estão oito das 13 fábricas da
Grendene e quatro de cada cinco trabalhadores que emprega. Hoje, com
máquinas novas e gente que teve acesso a uma educação melhor, a Grendene
produz 20 milhões de calçados por ano a mais do que em 2009 — com 9 000
funcionários a menos. "Diria que 70% de nosso ganho de produtividade se
deve a uma seleção mais apurada da mão de obra", diz Francisco Schmitt,
diretor de finanças da Grendene. "Em geral, o investimento em pessoas
tem retorno maior do que em capital físico", diz o economista Samuel
Pessoa, da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.
Tudo começou com uma simples pesquisa. Em 2000, o prefeito Cid Gomes,
atual governador do Ceará, encomendou um estudo sobre o padrão
educacional da cidade. O levantamento mostrou que, no 4° ano do
fundamental, quando os alunos costumam ter 9 anos, metade das crianças
nem sequer conseguia juntar sílabas e ler palavras. A constatação
deflagrou um plano de ação para corrigir o atraso. Diretores passaram a
ser escolhidos por processos de seleção em vez de indicação política. O
conteúdo das aulas começou a seguir um cronograma único e detalhado para
todo o município. Os professores iniciaram uma capacitação mensal para
aprender a ensinar. Avaliações viraram uma constante, mas não para punir
quem não aprendia, e sim para verificar se os alunos progrediam — não
há reprovação em Sobral. "Sem esse acompanhamento, muitos alunos seriam
reprovados à toa", diz Claudia Barbosa Viana, professora de português da
escola Francisco Aguiar, onde estudam as meninas que abrem a
reportagem.
Hoje, a proporção das crianças que leem e compreendem textos é de 97%
no 2e ano do ensino fundamental — aos 7 anos de idade. A psicóloga
Izolda Cela foi a secretária de Educação de Sobral de 2001 a 2006. Em
2007, passou a ocupar o mesmo cargo no governo do Ceará e levou o
Programa de Alfabetização na Idade Certa para todo o estado. De 2005 a
2011. o Ceará foi o estado que mais avançou no Ideb até o 5e ano do
fundamental. "O mais importante da reforma foi avaliar escolas e alunos e
cobrar um desempenho melhor", diz Martin Carnov, professor da
Universidade Stanford que estuda a educação na América Latina. O
programa cearense agora inspira um similar em esfera federal. Lançado
neste ano, visa garantir que os alunos de toda a rede pública no país
estejam alfabetizados até os 8 anos.
O papel do governo federal de um país continental como o Brasil é
reconhecer as melhores práticas em educação e dar escala a elas. "O
Brasil não faz isso bem", diz o alemão Andreas Schleicher, diretor-geral
de educação na OCDE, organização dos países mais ricos que estuda o
desenvolvimento econômico. Com mais dinheiro para a educação, o Brasil
terá uma chance de dar um salto na qualidade. Os futuros royalties do
pré-sal podem gerar incremento de 120 bilhões de reais no orçamento da
educação até 2022, segundo projeção do Ministério da Educação. Ao mesmo
tempo, a transformação da pirâmide demográfica aponta uma queda no
número de pessoas com idade escolar — cerca de 5 milhões de alunos a
menos no período.
Nesse cenário, segundo cálculo do economista Jorge
Arbache, professor da Universidade de Brasília e assessor especial da
presidência do BNDES, se nos próximos dez anos a economia brasileira
crescer apenas 2% ao ano, como tem acontecido no governo Dilma, o
investimento por aluno aumentará 42%. Se a média de expansão do PIB for
de 4% ao ano, o incremento por aluno será de 67%. Como aproveitar o
dinheiro extra? "O Brasil tem de estabelecer os padrões de qualidade da
educação que quer alcançar e ajustar o gasto conforme a demanda", diz
Arbache. Na última década, os gastos com educação no Brasil saíram de
4,5% do PIB para 6%. O país praticamente universalizou o acesso ao
ensino fundamental. Agora é preciso manter crianças e adolescentes na
escola e garantir que aprendam. "O grande desafio do Brasil é elevar a
qualidade da educação", diz Schleicher.
O que poderá fazer diferença, sobretudo, é uma boa gestão dos
recursos. Como ilustra o exemplo do ganho de produtividade da Grendene,
reformas educacionais bem-feitas e com continuidade geram resultados
expressivos na economia em tempo mais curto do que se pensa. Na mesma
década em que Sobral deu um salto, uma reforma ainda mais impressionante
estava tomando forma a 8 500 quilômetros de distância: na Polônia. O
país do Leste Europeu foi o único a não sofrer recessão de 2009 para cá
na União Europeia.
Isso tem a ver com as fábricas que se instalaram lá,
vindas de outros países, menos produtivos. Só as empresas lideradas por
italianos na Polônia são quase 750 — a Itália vive uma fuga de
investimentos em decorrência da baixa produtividade e do sistema
educacional que não melhora. A Fiat tem uma linha de montagem na cidade
de Tychy, no sul da Polônia. Lá produz seu compacto Fiat 500. "A
qualidade da educação se reflete na capacidade de um país de atrair
investimento", diz Cledorvino Belini, presidente da Fiat no Brasil. "Há
uma dificuldade maior para implementar medidas de aumento de eficiência
quando não se tem uma mão de obra qualificada." A Fiat está há 35 anos
em Betim, Minas Gerais, mas continua precisando treinar a mão de obra
para coisas básicas, como conceitos elementares de matemática e língua
portuguesa.
O sistema público na Polônia começou a ser reformado no fim da década
de 90. Os alunos do fundamental ganharam um ano a mais de aulas na
preparação para o ensino médio. "Essa medida é citada frequentemente
como fator essencial para a melhoria do desempenho de nossos estudantes
na década seguinte", diz Maciej Jakubowski, secretário executivo do
Ministério da Educação da Polônia. O país também inovou ao criar quatro
categorias de professor. Para pular de uma categoria para outra, o
professor precisa incrementar a formação e se sair bem na sala de aula.
Pura meritocracia. O resultado é que 92% do corpo docente em educação
básica tem mestrado, e a carreira de professor é uma das mais
concorridas da Polônia. De 2000 a 2009, o país ultrapassou Estados
Unidos, França e Alemanha no ranking do Pisa, prova da OCDE que mede a
qualidade do ensino para alunos com 15 anos em 65 países. De acordo com
as notas, é como se um aluno médio de 15 anos no Brasil tivesse o mesmo
conhecimento que um de 12 na Polônia — e que um de apenas 10 anos em
Xangai, na China, que aparece no topo do ranking.
Na Polônia, o governo trocou de mãos desde o início da reforma
educacional, mas os avanços foram mantidos. No Brasil, é comum as
políticas públicas serem abandonadas de um governo para outro. Uma rara
exceção é a política de expansão das escolas de tempo integral no ensino
médio de Pernambuco.
Governador em segundo mandato consecutivo,
Eduardo Campos manteve um programa iniciado por seu antecessor e, na
época, inimigo político, Jarbas Vasconcelos, g Hoje, metade da rede
pública já está em tempo integral ou semi-integral. O plano é chegar a
80% dos alunos até o ano que vem, o que deixaria de fora só os
estudantes do noturno.
O melhor é que o modelo de escolas integrais de Pernambuco está se
espalhando pelo Brasil. Quem leva o modelo pelo país afora é Marcos
Magalhães, que foi presidente da multinacional Philips no Brasil por 11
anos. Em 1999, ao descobrir que a escola em que estudou em Recife havia
sido fechada, o executivo reuniu amigos, como o empreiteiro Norberto
Odebrecht, e recuperou o prédio histórico com investimento de 2,5
milhões de reais. Mas Magalhães concluiu que não bastava entregar um
prédio novo. Em 2002, contratou dois pedagogos para criar um projeto de
ensino médio inovador que fosse interessante para os alunos, diminuísse a
evasão e, sobretudo, fosse replicável. "O ensino médio é um problema no
mundo inteiro, e esse parecia um segmento esquecido", diz Magalhães. "A
nossa ideia foi fazer um curso que prepara o aluno para o mundo do
trabalho." Em 2006, quando acabou o governo de Jarbas Vasconcelos, já
havia outras 12 escolas seguindo o modelo de ensino integral. Hoje, são
260 com professores acompanhando alunos o dia inteiro na escola,
disciplinas eletivas e aulas práticas de ciências em laboratórios bem
equipados. A nota média dessas escolas é de 4,5 pontos na prova anual
mais recente de Pernambuco, feita nos moldes do Ideb. Ainda é muito
pouco. Mas essa média é mais alta do que a de Santa Catarina, estado com
a melhor rede pública de ensino médio do Brasil. O modelo está sendo
exportado para Ceará, Goiás e São Paulo. A proposta tem outro aspecto
que começa a ganhar corpo no Brasil: incluir de forma transversal na
grade curricular conceitos que serão úteis aos alunos pelo resto da
vida, como foco em objetivos, otimização do uso do tempo e
empreendedorismo. Recentemente, a Abril Educação, empresa do mesmo grupo
que publica EXAME, trouxe dos Estados Unidos o programa O Líder em Mim,
que procura incutir esse tipo de questionamento nos alunos desde a
infância. O programa está sendo testado em escolas públicas cariocas e
particulares em São Paulo.
O resultado da política educacional de Pernambuco é uma oferta de
jovens mais preparados. "A qualidade do capital humano é um dos maiores
entraves à competitividade das empresas brasileiras. E aqui falo de
educação básica mesmo", diz a consultora de gestão Betania Tanure. A
Contax, empresa de centrais de atendimento, estava de olho na melhora da
competitividade quando instalou em Recife sua maior unidade da América
Latina. "Levamos em conta a melhora do nível educacional dos jovens da
região para investir", diz Otávio Azevedo, presidente do grupo Andrade
Gutierrez, dono de 35% da Contax. A central recifense, com 14 000
empregados, foi inaugurada em 2011.
O potencial de ganho com a educação para a economia é enorme num país
que mal começou a melhorar o nível de suas escolas. "Duas coisas
basicamente explicam o crescimento sustentado no longo prazo na maioria
dos países: o nível de renda e o desempenho em matemática e ciências",
diz Erik Hanushek, economista da Universidade Stanford. "Nesse segundo
aspecto, o Brasil tem ficado muito atrás de países como México e
Polônia." Historicamente, o Brasil não priorizou a educação. Até o fim
dos anos 70, investia menos de 2% do PIB no ensino. "A crença entre nós
era que a educação era consequência do desenvolvimento econômico, e não a
mola propulsora", diz Samuel Pessoa. Há sinais de que a visão mudou,
como a promessa que a presidente Dilma fez, em agosto, quando a lei que
destina 75% dos royalties do pré-sal para a educação foi aprovada no
Congresso: "Queremos dar educação de Primeiro Mundo para os jovens". As
propostas apresentadas na reportagem a seguir são atalhos para alcançar
esse objetivo. E nos livrar da vergonhosa colocação entre os piores
países no ranking do Pisa.
A velha e boa competição
Um programa do governo Obama levou estados americanos a fazer reformas educacionais que já estão dando resultado
O federalismo americano é famoso pela autonomia que dá aos estados.
Mas isso torna mais desafiadora a tarefa de desenvolver políticas
públicas nacionais. Na área de educação, o presidente Barack Obama
conseguiu superar essa barreira. Em 2009, lançou o Race to the Top
(Corrida para o topo), programa que incentiva reformas educacionais nos
estados em troca de repasses que totalizarão 4,5 bilhões de dólares até
o ano que vem. O programa é uma espécie de competição — os melhores projetos são financiados pelo governo federal. "O objetivo é espalhar pelo país as melhores práticas e incentivar os estados a renovar o ensino", diz Joanne Weiss, educadora que tocou o programa no Departamento de Educação desde seu início até setembro de 2013.
o ano que vem. O programa é uma espécie de competição — os melhores projetos são financiados pelo governo federal. "O objetivo é espalhar pelo país as melhores práticas e incentivar os estados a renovar o ensino", diz Joanne Weiss, educadora que tocou o programa no Departamento de Educação desde seu início até setembro de 2013.
Todos os projetos tiveram de cumprir exigências como adotar padrões
curriculares e um conjunto de avaliações para medir o progresso dos
estudantes, elaborar um plano de atração de bons professores — incluindo
formação continuada e recompensas por resultados — e resgatar as piores
escolas. São pontos que estão em linha com os desafios do sistema
educacional brasileiro apresentados na segunda parte desta reportagem.
Dos 12 estados vencedores, os que mais avançaram até agora foram
Kentucky, Delaware e Tennessee. Este último elevou de 35% para 47% a
parcela de alunos com proficiência em matemática, em apenas dois anos.
Uma estratégia do Tennessee foi criar um grupo que visita as escolas e
assiste às aulas para sugerir planos de desenvolvimento profissional
específicos para cada professor — há algo semelhante em Minas Gerais,
estado com o melhor desempenho no primeiro ciclo do fundamental. "Um
programa desse tipo seria uma aplicação bem adequada dos royalties do
petróleo", diz Naercio Menezes Aquino, coordenador do Centro de
Políticas Públicas da escola de negócios Insper.
A luta pela qualidade
Os quatro pontos centrais que o Brasil precisa atacar para dar um salto na qualidade
Desde meados da década de 90 , o senador Cristovam Buarque tem
pautado sua atuação política pelos temas que cercam a educação. Virou
sua marca. Mas suas propostas são polêmicas entre especialistas da área e
sua gestão como ministro da Educação só durou um ano porque o
ex-presidente Lula o considerava grande formulador, mas executor
sofrível. Isso não enfraquece uma avaliação que ele não cansa de fazer:
"O Brasil não tem ambição em educação". Para ele, o país se contenta em
apenas melhorar, quando o necessário seria dar um salto — para alcançar o
nível de nações como Coreia, Canadá e Austrália. A egípcia Mona
Mourshed, especialista em educação da consultoria McKinsey, montou uma
escala que divide os países em graus de ascensão na educação: do nível
fraco para o médio, do médio para o bom, do bom para o ótimo e do ótimo
para o excelente. O Brasil está no primeiro degrau da trajetória. Como
chegar ao topo? EXAME entrevistou 50 especialistas para entender os
pontos mais determinantes para desenvolver um ensino de padrão
internacional. Há soluções que já funcionam em cidades como Sobral, no
Ceará, e Rio de Janeiro ou em estados como Pernambuco, São Paulo e Minas
Gerais. "O desafio agora é dar escala nacional a essas boas práticas",
diz Andreas Schleicher, vice-presidente de educação da Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. A seguir, quatro pontos que o
país precisa desenvolver.
Há poucos consensos nas discussões sobre educação. Mas economistas,
pedagogos, gestores públicos e sindicalistas concordam que o elemento
mais determinante para a melhoria da qualidade desse serviço é o
professor. "Assim como o médico é quem faz o sistema de saúde, o
professor é central para o ensino", diz Paula Louzano, professora de
educação na Universidade de São Paulo, com mestrado na Universidade
Stanford e doutorado em Harvard. "A diferença é que a docência virou um
subempreChile. Em 2010, o governo chileno também passou a dar bolsas de
estudo aos estudantes que tiram notas altas no vestibular e decidem
ingressar em cursos relacionados a educação — lá, todas as faculdades
são pagas. Um em cada quatro alunos que entraram no curso de
licenciatura em 2012 foi beneficiado. Canadá, Austrália e Polônia, três
referências em educação pública, também têm níveis de proficiência
nacionais para a carreira de professor, com instruções claras sobre o
que se espera dele em cada uma das faixas de salário. Na Polônia, a
reforma da carreira foi o principal fator que fez o país subir nos
exames internacionais de qualidade da educação. Na Austrália, houve
mudanças recentes, que dividiram a carreira do professor em vários
níveis. Em Ontário, no Canadá, a qualidade dos professores é medida por
um órgão governamental chamado College of Teachers, que oferece aos
docentes cerca de 400 cursos diferentes de qualificação.
O estado de São Paulo tem, desde 2010, oito faixas salariais para os
professores — eles avançam ao ser aprovados em exames ou em cursos de
qualificação. E possível incrementar 10% o salário a cada três anos,
além dos aumentos que todo mundo recebe. Assim, foi introduzida a
meritocracia na progressão da carreira. Meritocracia, como se sabe, é
tabu nos sindicatos. Mas o governo paulista foi hábil na negociação:
convidou os seis sindicatos da área para discutir os termos da nova
progressão salarial. "A ação proativa reduziu a resistência", diz Herman
Voorwald, secretário de Educação do estado de São Paulo. No Rio de
Janeiro, não é possível dizer o mesmo. A cidade está em polvorosa com
protestos de professores municipais e estaduais desde agosto (até o
fechamento desta edição, em 21 de outubro, o impasse continuava). Uma
das reivindicações é que os professores não sejam divididos em carreiras
com salários diferentes. Cerca de 7% da rede municipal já ganha mais de
4 000 reais para trabalhar 40 horas semanais. A ideia da prefeitura é
progressivamente levar todos para esse regime. O sindicato não aceita: o
plano de carreira tem de ser igual para todos. Os sindicalistas também
se opõem a bônus salariais com base no resultado dos alunos em provas.
Minas Gerais tem o melhor desempenho do Brasil na educação fundamental e
foi um dos primeiros a implantar a política de bonificação. Pernambuco
também dá 14º salário aos professores de escolas que batem suas metas.
Onde o tabu é quebrado, os resultados aparecem.
Criar um padrão nacional de ensino
Adoção de um currículo que determine o que o aluno de qualquer parte
do país precisa aprender em cada período letivo pode ser um atalho para
elevar a qualidade do ensino em pouco tempo. "Cada país acha-se num
estágio de qualidade da educação e deve ter prioridades compatíveis com
ele", diz Mona Mourshed, da consultoria McKinsey. "No caso do Brasil,
que parte de um nível baixo, um guia padronizado sobre o que cada
professor deve ensinar em cada disciplina pode gerar avanço mais
rápido." E o que fizeram nos últimos anos a cidade de Sobral, no Ceará,
para acelerar a alfabetização, e o estado de São Paulo, para melhorar o
ensino médio: criaram currículos detalhados indicando o que os
professores devem ensinar em cada bimestre. A iniciativa tornou Sobral
uma ilha de excelência em alfabetização e fez de São Paulo o estado que
mais avançou no ensino médio de 2005 para cá. "A criação de um currículo
único foi a principal medida tomada para melhorar o aprendizado dos
jovens", diz Herman Voorwald, secretário paulista de Educação. E como se
aplica na prática um currículo padronizado? Em Sobral, os professores
saem de sala um dia por mês para ser capacitados sobre os itens do mês
seguinte. Isso garante a uniformização do conteúdo — o que raramente
ocorre no restante do Brasil. "Há uma bagunça curricular no país. Cada
escola ensina os conteúdos a seu bel-prazer", diz Mozart Neves Ramos,
ex-secretário de Educação de Pernambuco e integrante do Conselho
Nacional de Educação. "Se um aluno estuda a cada ano do fundamental em
uma escola, corre o risco de ver a mesma coisa várias vezes."
A implementação de um padrão de currículo é uma etapa importante até
em países avançados. A província de Ontário, no Canadá, iniciou há 13
anos a unificação curricular, o que a manteve no topo dos rankings
internacionais de qualidade da educação. "As escolas e os professores
têm liberdade para ensinar, mas têm de mirar o currículo oficial porque
os conhecimentos são exigidos dos alunos nas provas anuais criadas pelo
governo", diz Michael Fullan, especialista em educação da Universidade
de Toronto que assessorou por dez anos o ex-primeiro-ministro de Ontário
Dalton McGuinty. O resultado foi tão bom que os parâmetros também estão
sendo adotados na pré-escola. O caso de Ontário inspirou a Austrália,
que agora está implantando um currículo para todo o país.
Em 2010, ao se
ver ultrapassado no Pisa por Hong Kong, Xangai, Coreia e Singapura, o
governo australiano ficou preocupado e resolveu implementar mudanças
radicais, como a unificação do currículo. A justificativa: diminuir as
diferenças entre os estados. "O primeiro exame nacional mostrou uma
disparidade grande demais no país", diz Stephen Dinham, chefe do
departamento de educação de professores da Universidade de Melbourne. "O
curriculo-padrão tenta reduzir essa diferença." No Brasil, a palavra
currículo é outro tabu. Parte da academia pensa que um padrão nacional
tolheria a criatividade e desconsideraria as peculiaridades regionais. O
Ministério da Educação resiste a falar em currículo nacional. Em 2012, o
ex-secretário de Educação Básica César Callegari propôs que o Conselho
Nacional de Educação discutisse uma espécie de padronização do ciclo da
alfabetização. O próprio Callegari, hoje secretário de Educação da
cidade de São Paulo, recusa-se a usar a palavra currículo, tamanha a
resistência. Seja qual for o termo, já seria um avanço. Mas Romeu
Caputo, que o substituiu no cargo no início deste ano, resolveu fazer
uma reavaliação. "A proposta está sendo rediscutida para incluir todos
os anos da educação básica", diz Caputo.
Por ora, o que o governo tem são diretrizes que apontam grandes áreas
de conhecimento para as quais os professores devem atentar. E nada
poderia ser mais vago. Até quem já esteve no ministério reconhece.
"Lamento não ter tentado criar um currículo unificado quando estava lá",
diz Maria do Pilar Lacerda, ex-secretária de Educação Básica de 2007 a
janeiro de 2012. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama decidiu
implementar uma proposta de padronização dos tópicos abordados a cada
ano escolar. Apenas dois estados decidiram não aderir. "Qualquer
resistência à implantação de um currículo nacional é dissipada quando se
mostram as evidências", diz Maciej Jakubowski, secretário executivo do
Ministério da Educação da Polônia, que aprovou seu currículo nacional em
2008, após uma série de outras reformas. E essa a expectativa do
presidente Obama. E devia ser a do Brasil também.
Todos devem avançar juntos
Os alunos das escolas municipais de Sobral, no Ceará, fazem testes
todo mês. Mas esses testes não geram reprovação. Ao contrário, evitam
que alguns dos estudantes fiquem para trás. As respostas das provas vão
parar em planilhas que os professores usam para identificar as questões
que quase ninguém acerta e as matérias em que cada aluno não está indo
bem. Depois ou antes do horário de aula, os alunos recebem reforço nos
ternas em que vão mal. Mas não é só assim que eles são "resgatados". Uma
escola na zona rural da cidade tem três motoqueiros para ir diariamente
atrás dos faltosos e conscientizar os pais de que seus filhos precisam
frequentar a escola. "O esforço tem de ser para que todos avancem
juntos. A consequência de ir mal na escola é altíssima para o cidadão",
diz Andreas Schleicher, da OCDE. "Depois, fica difícil tirar a
diferença." A cidade de Xangai, na China, entendeu o recado e trabalhou
para que as piores escolas se aproximassem das melhores. Para ser
promovidos lá, os professores dão aula nas escolas mais distantes por
alguns anos. Isso garante a essas escolas bons quadros. Xangai tem as
melhores notas do exame mundial Pisa, da OCDE.
Um ponto básico para reduzir as desigualdades é o investimento em
educação infantil. Muitos economistas sugerem que seja tão alto quanto o
gasto com universitários. "Ir a uma boa pré-escola reduz a
probabilidade de repetência e abandono em todo o ciclo educacional e
impacta até na renda futura", diz Ricardo Paes de Barros, pesquisador do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. A prefeitura do Rio de
Janeiro está melhorando as creches e promovendo encontros com pais de
comunidades carentes para mostrar o tipo de estímulo que as crianças
precisam ter em casa. "É muito importante eliminar a desigualdade o mais
cedo possível", afirma Paes de Barros.
Passar o dia na escola- aprendendo
Essa é da série "todo mundo que tem educação de qualidade aplica e o
Brasil não". Em 1997, o Chile assumiu o objetivo de dar a todos os
alunos o direito à educação integral dos 6 aos 17 anos. Hoje, 90% dos
estudantes chilenos estão no regime. Reino Unido, Canadá, Austrália e
Holanda têm leis parecidas. O Brasil ainda está no estágio em que a
maioria das escolas públicas funciona em dois ou até três turnos.
Mudar a
situação requer professores para ficar o dia todo com os alunos e
infraestrutura adequada. Isso significa não só ter mais salas de aula
mas também laboratórios, bibliotecas e computadores. Um estado que
avançou nesse sentido é Pernambuco. Suas escolas integrais ou
semi-integrais já representam metade da rede pública do ensino médio. A
meta para 2014 é alcançar 80%. Nos intervalos das disciplinas regulares,
os alunos têm aulas práticas de ciências e robótica e contam com opções
como empreendedorismo. Há também tempo dedicado ao nivelamento dos que
chegam ao ensino médio com defasagem. Os alunos dessas escolas obtêm
notas 40% superiores às do restante da rede. Uma das metas do Plano
Nacional de Educação é que até 2020 pelo menos metade das escolas de
educação básica no país seja de tempo integral. Hoje, um quarto delas é —
quase 50 000 unidades estaduais e municipais. O problema é o conceito
de educação integral do plano: em geral, o aluno fica mais tempo na
escola apenas para atividades culturais. Não há garantia de ter
professor nem infraestrutura. Aula de reforço, só se houver voluntários.
"O tempo extra precisa ser usado em prioridades, como matemática e
línguas, e estimular o pensamento crítico", diz Barbara Bruns,
pesquisadora do Banco Mundial. Ou seja, não basta passar mais tempo na
escola — é preciso aprender enquanto estiver lá.
Revista Exame 28/10/2013
http://www.asmetro.org.br/portal/portal/area-restrita/21-clipping/2273-revista-exame-a-diferenca-comeca-na-escola-a-luta-pela-qualidade

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